MAC – Museu de Arte Contemporânea de Niterói

 

Em 2006, o MAC de Niterói completou 10 anos com uma intensa programação de exposições, seminários e ocupações artísticas. Por que museu, de Nelson Leirner, e Incertae sedis, de José Rufino, inauguradas no final de 2005, foram incluídas pela crítica especializada entre as melhores daquele ano. Em março, como parte das comemorações do evento Niterói Espanha, o MAC abrigou a exposição Mirabolante Miró, de gravuras do artista catalão. Em setembro, mês de aniversário do museu, a exposição Abrigo poético – Diálogos com Lygia Clark reuniu pela primeira vez 22 obras da artista e de outros nomes pertencentes à Coleção João Sattamini. E, para encerrar a programação de aniversário e inaugurar a do centenário de Oscar Niemeyer, o MAC traz a magnífica Coleção do Museu Pergamon de Berlim, com Deuses gregos em templos contemporâneos, transformando o salão principal em um panteão –, uma clara alusão à maneira como os deuses gregos são mostrados ao público alemão.Estas e outras exposições, ações educativas e atividades do MAC podem ser conferidas no recém-lançado livro MAC de Niterói – 10 anos, belíssima publicação com textos atuais e de época, criteriosamente selecionados e organizados pela equipe do MAC, e amplamente ilustrado por imagens resgatadas nos arquivos do museu. O livro conta também com texto de Italo Campofiorito – impressionante relato de como tudo começou – e com a reprodução dos primeiros desenhos e anotações de Niemeyer para o MAC. O projeto gráfico é assinado pela Dupla Design, responsável pela criação da identidade visual do museu.

Explicação Necessária
Oscar Niemeyer (2006)

“Como é fácil explicar este projeto!
Lembro quando fui ver o local. O mar, as montanhas do Rio, uma paisagem magnífica que eu devia preservar.
E subi com o edifício, adotando a forma circular que, a meu ver, o espaço requeria.
O estudo estava pronto, e uma rampa levando os visitantes ao museu completou o meu projeto. “

 Manuscrito da primeira versão do texto de 1996

A História do Início

Foi num dia ameno de maio, 1991. Eu acompanhava o arquiteto Oscar Niemeyer e o prefeito Jorge Roberto Silveira, procurando na orla marítima um terreno adequado ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Mas no meio do caminho, no mirante da Boa Viagem, já era evidente que o destino acertara. Seria ali o museu que ainda não tinha forma, mas nascia com invencível vocação de ser.

O prefeito, que não era de meias medidas, encarregara-me de convidar Oscar Niemeyer, ver se ele queria fazer um museu de arte contemporânea em Niterói. Fui a Anna Maria e falamos com Oscar. Toda a pequena história dos cinco anos que se seguiram é, aliás, marcada por essa mágica e feminina presença: uma intuição rara e sensível, sua participação foi de uma competência tão constante e discreta que parece implícita, e é tempo de registrar. Porque João e Sylvia Sattamini entram no MAC com a coleção, e sua generosidade inteligente já se integra ao sucesso do museu. E os críticos e curadores, crentes da próxima hora, têm o resto da vida para animá-lo.

No dia 15 de julho, o Arquiteto e o Prefeito apresentaram à imprensa o anteprojeto arquitetônico: belo e absolutamente surpreendente, já resolvido, na escala paisagística e na forma-estrutura de concreto armado, com apoio central – aflorando do espelho d’água que é um eco do mar – como um firme caule que se abre em flor, chama, cálice? Para conter as salas de trabalho, o nobre e vasto salão de exposições, a varanda belvedere a toda a volta e os seis setores do mezanino, onde o ritmo das vigas protendidas em balanço de 11 metros e a penumbra museológica lembram paradoxalmente a calma de criptas milenares.

A obra foi inaugurada no dia 2 de setembro de 1996. Alguns anos de história e já os fatos e personagens intermediários – embora fundamentais – vão se esbatendo sob a sombra dos protagonistas maiores: o MAC é criação e decisão do arquiteto Oscar Niemeyer e do prefeito Jorge Roberto Silveira. A história crítica sempre se funde com a história monumental ou mítica, guardando-se o resto na história que Nietzsche chamava de antiquária. Mas nesses recantos de memória, ainda lembro o dia – era secretário da Cultura de Niterói – em que fui procurado por Anna Maria Niemeyer, amiga de toda a vida, e pelo colecionador João Sattamini, acompanhados pelo agressivo artista, mas civilizadíssimo curador da coleção, o pintor Victor Arruda. O famoso colecionador queria condições favoráveis para doar à nossa cidade a sua coleção de obras de arte contemporânea brasileira – a maior do país no setor. Pensavam em reformar prédios antigos, a meu ver mal localizados para a evolução urbana, já então incessante, de Niterói.

O tempo decorrido foi bastante para que o museu temperasse a sua primeira equipe técnica – como esquecer as reuniões com Luiz Antonio Mello estimuladas pela ansiedade fidalga de João Sattamini? Anna Maria, nem sempre de longe, montou com Victor Arruda a orquestração polifônica de A caminho de Niterói, no Paço Imperial da Praça Quinze, onde minipeças e grandes formatos encontraram uma unidade que era a antevisão do MAC. Os móveis também vieram de Anna Maria: poucos, mas afinadíssimos – volume, cor e textura – para ambientação do espaço arquitetônico. As tarefas executivas deslizaram tão naturalmente para as mãos firmes de Dôra Silveira que chego a pensar que foi o destino mesmo do museu que quis assim.

E rapidamente passou-se o resto desta narrativa. Juntaram-se a nós – para a museologia, a teoria e a pesquisa, a arte-educação, a arquitetura museográfica e a administração – Marcia Müller e Rose Miranda, Luiz Camillo Osorio e Guilherme Vergara, Sandro Silveira, Ricardo Brugger e Manoel Vieira, Telma Lasmar e Alexandre Vasconcelos. Peter Gasper trouxe a sua alquimia luminosa. A curta distância, o olhar culto e fraterno de Cláudio Valério Teixeira e os companheiros eficientes da Secretaria da Cultura e da Emusa…

Com Oscar Niemeyer, veio a equipe de desenvolvimento, Jair Valera e Anna Elisa Niemeyer, a fiscalização veterana do Hans Müller. E, é lógico, a ciência de Bruno Contarini, cujo cálculo para a estrutura de concreto armado respondeu fielmente à ousadia formal da arquitetura.

Enfim, ressurgiam, de fato, em nosso MAC de Niterói os mais velhos amigos da arte e dos artistas na história do ocidente: o Patrocinador, no caso o Poder Público com a visão do estadista, o Arquiteto com sua obra plena de futuro e o Colecionador, que precedeu na história o mercado de arte e os museus.

A luta revolucionária de Oscar Niemeyer pela “idéia da liberdade plástica” é conhecida. Do Baile na Pampulha ao Ibirapuera e, depois, Brasília, o Partido Comunista francês, ou o Centro Cultural do Havre, na Universidade de Constantine, no Caminho Niemeyer de Niterói, no Setor Cultural que se ergue em Brasília, a articulação de formas e volumes, a instauração de espaços inovadores, tudo compõe um espetáculo arquitetural único e inigualável.

A relação inventiva de Oscar Niemeyer com o cálculo do concreto armado fixou-lhe, através de três vitórias – a leveza arquitetural, os grandes vãos e a forma-estrutura –, uma posição histórica de liderança na arquitetura contemporânea, e o MAC de Niterói é o produto mais recente dessa evolução niemeyeresca: parece a síntese de todas as conquistas que, desde as antigas catedrais, levaram avante a audaciosa vontade de dominar o espaço construído e a paisagem da Terra.

Preste o visitante atenção, ao subir a rampa da entrada, nas sutilezas intrigantes e nas significações da criação arquitetônica – verá que à emoção artística se junta uma nítida visão humanista. A rampa não nasce, na verdade, de pura preocupação plástica; funciona, sobretudo, como um dispositivo visual. Percorrê-la é olhar forçosamente o grande volume branco que cresce a cada passo, enquanto desfila lentamente ao fundo o histórico panorama da Guanabara, como um ciclorama fantástico. Ou seja, a rampa é o trajeto de um passeio arquitetônico, quem sabe? A sugerir a rotação da natureza em volta da forma branca, recortada no céu por “uma linha que nasce do chão e, sem interrupção, cresce e se desdobra, sensual, até a cobertura…” propositalmente circular. Uma visão cósmica; não do universo científico, mas de uma apropriação poética e ideológica do mundo. Em nossa época, ao falirem as determinações históricas, ainda maior é a liberdade, a livre escolha de um novo humanismo, fundado na ética e na busca do conhecimento. A beleza do MAC vem exatamente da transcendência poética e onírica dessa crença no futuro.

Escrevera o texto acima para um livro que não se fez. De lá para cá, entretanto, prosseguiu a vida do MAC. Diz o povo que não há nada como um dia depois do outro e diz Marc Bloch (Le Métier d’historien, 1947, 1952), nas citações de J.C. Argan (1969) e P. Ricoeur (1978, 1983), que “não se faz história, a não ser com fenômenos que continuam…” ou “que não haveria coisa alguma a compreender, não haveria história, senão por certos fenômenos que continuam…” Muitas posições se renovaram mas, como queria Bloch, prosseguem as mesmas funções nesses acontecimentos outros.

O prefeito Godofredo Pinto e o secretário da Cultura Marcos Gomes, para não falar de Marilda Ormy, presidente da Fundação de Artes de Niterói, retomaram o impulso e levam o Museu adiante, com vigor, amizade e compreensão. E o livro do MAC finalmente saiu, ou o leitor não teria chegado até aqui.

Ítalo Campofiorito
Membro do Conselho Deliberativo e ex-diretor executivo do MAC

Da Explicação Necessária de Niemeyer à Missão Necessária

Sem dúvida, para o MAC como projeto de museu de arte contemporânea, explicar é necessário. Fácil para Niemeyer, que depois de 10 anos simplificou ainda mais a sua explicação necessária, reduzindo a três pontos a cosmogênese do seu projeto. Mas é justamente afinando com a “explicação necessária” de Niemeyer o norte desse projeto que melhor alinhamos a origem da forma ao destino-missão deste museu. Primeiro, a concepção nasce da visão ampliada do vazio do todo ainda inabitado, como um Cosmo inacabado. A visita ao local é toda referida por Niemeyer pelas grandezas imensuráveis – “o mar, as montanhas do Rio, uma paisagem magnífica que devia preservar”.

Depois ele comenta o segundo ponto: “(…) E subi com o edifício, adotando a forma circular que, a meu ver, o espaço requeria (…)”. O espaço infinito modela a forma circular, lembrando um princípio estético oriental, o de que o vazio modela o vaso. Niemeyer parece buscar ao máximo a pregnância da beleza na imensidão vazia, pela transparência da obra suspensa diante do horizonte intocável e abundante. Além de se afastar horizontalmente ao máximo das construções urbanas, o prédio se eleva acima do nível da rua – do chão –, provocando a experiência de limite de distanciamento do mundo cotidiano, para se fixar simbolicamente à beira do precipício sobre as águas da baía de Guanabara. Ali encontra também o lugar perfeito para o mundo da arte, na equidistância entre cotidiano e simbólico, entre físico e metafísico, um ponto de tangência dentro e fora de ambos. O que torna o MAC um círculo mágico de ressonâncias entre ficção e realidade, lembrando o inexplicável infinito do Aleph de Borges (1): “um lugar do espaço que contém todos os pontos (…) o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos”.

Niemeyer conclui sua explicação necessária com o terceiro componente dessa unidade tripartida, a rampa: “(…) O estudo estava pronto, e uma rampa levando os visitantes ao museu completou o meu projeto”. Certamente essa peça arquitetônica também exerce uma função simbólica como percurso espiral barroco, ponte de mediação entre universos de percepções totalmente distintos – a rua e o museu. Porém, ela é em si uma escultura-caminho de acesso/ascese para os visitantes, fazendo todo o entorno da paisagem girar como uma infinita ante-sala, ou galeria a céu aberto, de iniciação do olhar para uma atitude estética que se liga ao corpo que caminha em movimento ascensional. A dimensão simbólica se mescla à experiência física das sensações do visitante na rampa. A suspensão da arquitetura toma o sentido de elevação da visão perante o mundo acompanhada pelo caminho para um patamar inaugural de valores artísticos vinculado às leituras e descobertas para cada sensibilidade.

Nesta última síntese das sínteses de Niemeyer, podemos identificar no MAC uma unidade tri-partida. A missão do MAC se compõe também de três dimensões interligadas – cultura, meio ambiente e sociedade se unem entre forma e símbolo pela apreciação do visitante. A forma circular da nave suspensa é uma concha de fecundação de sensibilidades aberta entre dois mundos, entre a paisagem magnífica, transcendente, e o cotidiano urbano, imanente, vistos pelos visitantes – a sociedade – unidos pela rampa, lugar de passagens simbólicas. A preocupação com o equilíbrio e a importância dessas três dimensões – cultura (a nave), meio ambiente (a paisagem, natureza) e sociedade (a rampa) – é apenas a ponta de uma desafiante trajetória. Quem sabe é esta a grande potência artística na arquitetura do MAC como mirante da Boa Viagem, ainda não completamente realizada: constantemente reinventar o papel e as práticas de um museu-caminho-mirante de experiências movidas pela espiral utópica ou transformadora da arte. Pois já aí estará sendo materializado um desejo do Niemeyer e o destino da forma, em suas palavras na primeira versão (1996) da “Explicação Necessária”: “(…) E senti que o museu seria bonito e tão diferente dos outros que ricos e pobres teriam prazer em visitá-lo.”

O MAC é uma manifestação artística que exige a ressignificação contínua da função museu: arte para uma consciência ambiental expandida pela participação. Instiga uma atualização do conceito de unidade tripartida para a sua missão, que lembra não só Max Bill mas também as três ecologias de Félix Guatarri (2): o equilíbrio entre o meio ambiente e as relações produtivas de uma sociedade-cultura, e a interseção dessas relações na construção do indivíduo – território de autopoiesis, isto é, do exercício e expressão da subjetividade. Talvez depois de 10 anos ainda estejamos tateando a fácil explicação necessária de Niemeyer para o projeto, para imprimirmos a desafiante missão necessária do MAC como um museu para a arte no mundo contemporâneo.

O MAC é um prédio que causa muita surpresa; assim Niemeyer intuitivamente liberou na forma arquitetônica o seu desejo de utopia concreta. Pois, ainda que pequeno, é infinito. Ao mesmo tempo que tão leve, contém em forma tão simples todas as grandezas impalpáveis, dos céus, do mar e das montanhas ao seu redor; e ainda assim mantém-nas livres, sem clausura. É concreto e transcendente, composto de formas geométricas de grande força simbólica – uma rampa em espiral e uma concha circular suspensa por uma coluna central única. Sua posição geográfica acrescenta a potência sublime de nos colocar diante do infinito (reconhecer nossa fragilidade), com toda a vista sobre a baía de Guanabara. Por um lado, essa obra se torna uma pequena grande novidade invadindo uma paisagem guardada por igrejas e fortalezas de 500 anos. Por outro, ela é um magneto cósmico que absorve para si todo o espaço tangível e intangível, físico e metafísico, passado e futuro, ao seu redor.

É com essa ressonância de 360º que o MAC foi ao longo desses 10 anos apresentado como uma obra de arte contemporânea, que tem o potencial poético, imaginário e concreto de radicalizar a própria função museu para além de suas paredes e dos objetos expostos. O que melhor poderia se ajustar aos manifestos artísticos de expansão entre arte e vida defendidos pelas vanguardas experimentais da arte do século XX do que um museu arquitetonicamente voltado para fora, para o mundo, um antimuseu, que antes de mais nada se apropria da imponência da beleza da paisagem ao seu redor como parte de seu acervo universal das histórias da arte, cultura e natureza?

Em dezembro de 2005, a direção do MAC e todo o conselho de diretores técnicos e administrativos reuniram-se seguidamente para redigir a missão e as principais metas para este museu em 2006. Começamos compartilhando nossas diferentes visões e perspectivas para buscar alcançar uma missão como síntese desses 10 anos de experiência e projeção para o futuro. Registramos aqui este ponto de partida para marcarmos a direção na qual deve seguir a instituição, da inspiração na forma arquitetônica diante da paisagem para o destino e função deste lugar. Do resultado dessa interseção de olhares tiramos um parágrafo único para a visão do MAC que cabe registrar aqui:
“O MAC é um Portal para o Novo, um lugar inspirado no ideal humanista de Niemeyer. Pelo seu exemplo de comunhão entre arquitetura e paisagem, aqui se dá um encontro especial entre passado, presente e futuro, oferecendo uma beleza acessível a todos, bem como abrigo e laboratório poético para a contínua renovação da arte contemporânea brasileira.”

UM MUSEU COMO OBRA DE ARTE:
POÉTICAS DO INFINITO

“Vale a pena olhar o céu.
Sentir como o ser humano é frágil, insignificante, sem perspectiva.
Mas sem esquecer que a vida tem de ser vivida, e rir e chorar é o nosso destino.”

(Oscar Niemeyer)

“Preste o visitante a atenção, ao subir a rampa da entrada, nas significações da criação arquitetônica – verá que à emoção artística se junta uma nítida visão humanista. (…) Ou seja, a rampa é o trajeto de um passeio arquitetônico, a sugerir a rotação da natureza em volta da forma branca, deliberadamente circular. Uma visão cósmica.” (3)”

(Ítalo Campofiorito)

Invocar o MAC como obra de arte significou ao longo desses anos propor que a visita começasse lá fora, ou intencionalmente apontar todo o entorno da paisagem como exposição permanente, trazendo a atenção do visitante, de todas as idades, para o percurso dos mesmos passos de intuição criadora do Niemeyer, quando pela primeira vez escolheu este lugar, lembrado na “explicação necessária” como a magnífica paisagem. Mas também se oferece ao visitante uma experiência sensível ampliada, da percepção que se expande e se concentra ao mesmo tempo, do infinito cósmico dentro de uma visão real à intuição imaginativa sobre a potência de transfiguração dos limites de inclusão do indivíduo no mundo, na (in)finitude humana. Daí também nasceu a idéia de “ritual da rampa”, que ocorre segundo uma trajetória de mudanças de percepções contínuas, de conversas compartilhadas, muitas vezes silenciosas. O MAC se oferece para essa vivência da forma artística como pertencente ao lugar, intransferível, que se enraíza geograficamente junto com o espectador, para que se resgate o momento relacional entre arte, mundo e sujeito. O prédio do MAC diante da paisagem realiza como campo de percepções todo o percurso da arte moderna para a contemporânea, saltando da moldura para o ambiente. Nessa abordagem se resgata a visão de Merleau-Ponty para a experiência de Cézanne, da percepção encarnada em um corpo onde se dá a visão móvel e movida com o mundo.

A experiência monumental do MAC diante da baía de Guanabara, com sua rampa espiralada, realiza também um diálogo especial com a “Spiral Jetty” de Robert Smithson, artista americano, líder histórico dos anos 70, com suas visões utópicas para a arte ambiental (land art) do século XX. Com Smithson, Richard Long e outros, toda uma geração de artistas daquela década buscou realizar suas obras diretamente em territórios onde se encontram a culminância cósmica (imemorial) e a interferência artística na paisagem como se fossem esculturas-caminho. Tais referências artísticas e filosóficas, marcantes para o entendimento das vanguardas modernas e pós-modernas, fazem parte do alinhamento histórico que embasa a potência local e universal da experiência do MAC como obra de arte. Propor essa visão do MAC como arte significa incluí-lo em uma experiência única que se expande para o mundo, ao mesmo tempo que se contrai dentro de uma ordem – sistêmica e dinâmica – de um todo estético. Reciprocamente, a função museu de arte contemporânea juntamente com a forma artística que atinge o estatuto de experiência existencial se expande na direção do mundo, abrindo o caminho de iniciação para o que desenvolvemos a partir do MAC – “Poéticas do Infinito”. Essa conjugação entre arte e existência, muito mais do que utópica no sentido de não-lugar, é de apropriação concreta, não de isolamento da forma em relação ao mundo, mas de contaminação e transformação geográfica das manifestações artísticas em territórios de afetos e saberes.

A vivência do MAC como obra de arte é primeiramente a de propor ao sujeito um estado de abertura diante do mundo, trazendo para a experiência da percepção as perspectivas fenomenológicas de Merleau Ponty: ”O mundo visível e o mundo dos meus projetos motores são ambos partes do mesmo Ser”. O corpo expandido de percepções é um corpo expandido da arte para o mundo: “corpo que entrecruza visão e movimento…” Em O olho e o espírito, M. Ponty aborda a visão não como operação do pensamento que traz para a mente uma imagem ou representação do mundo, mas como imersão do sujeito no corpo de suas visões/ sensações e no mundo visível, consciente de si como leitor móvel. O MAC como obra de arte e o seu entorno oferecem a cada visitante a condição de território de experiências autopoiéticas, de se fazer Ser pela construção de sentido dentro do tecido invisível que une as coisas aparentemente desconexas do mundo, ambos – o visitante e a obra de arte – abertos e tocados um pelo outro. A área externa do MAC é o território dessa experiência liminar, de passagens entre o cotidiano e o simbólico; daí sua dimensão ritualística de experiência de mudança de atitude para a atenção ao tempo-espaço de percepção imaginativa.

Carol Duncan (4) também aponta para os espaços em torno dos museus, desde os castelos do século XVIII e as construções neoclássicas do século XIX, onde os jardins preparavam o cidadão, que se afastava do caos urbano, para a elevação sensível e espiritual da visita ao museu. Os rituais civilizatórios eram também de organização da percepção para o tempo-espaço da arte. Dessa forma, o MAC se oferece como obra de arte ambiental contemporânea, pois ele atua como campo sistêmico de iniciação à sensibilidade que embasa as principais reflexões estéticas não mais isoladas do mundo, materializando o percurso relacional do espaço para o tempo-vivência, ou seja, da arte moderna para a pós-moderna. E, além disso, é também um museu que apresenta as obras como poéticas (práticas artísticas) que exigem a participação do sujeito construtor de sentidos e, ao mesmo tempo, de si próprio (5).

Niemeyer realiza com o MAC um monumento muito mais do que modernista – sua forma-espaço envolve o visitante em um movimento sincrônico que faz girar todo o cosmo ao seu redor, faz mover montanhas. Daí a dimensão iniciática do MAC de dar centralidade humanista a um leitor móvel no universo, atualizando os paradigmas renascentistas apontados por Alberti e mais tarde por Vasari – reunidos por Giulio Carlo Argan (6) – diante da milagrosa Cúpula de Brunelleschi, em Florença, “erguida sobre os céus”. Associando essa abordagem de Argan para a cúpula renascentista com o caso do MAC, assim como a catedral florentina o MAC como obra de arte se delineia diante dos céus como confluência entre o físico e o metafísico, lugar dos limites entre o visível e o infinito. O MAC é uma obra poética modelada pela apreciação do infinito e, como tal, não pode prescindir de um estado poiético, do sujeito da percepção imaginativa, da intuição de múltiplas metáforas que celebram o infinito. Isso se dá alinhando a experiência geográfica do sujeito, aqui e agora, uma atitude interativa com a paisagem e o museu. É nessa experiência-poética do sujeito para o mundo que o MAC como obra de arte cruza a história do olhar e da percepção estética ligados à paisagem e ao sublime, mas também instaura a abertura do museu-abrigo que ecoa as exigências da arte contemporânea de estar em unidade com a vida.

Ainda assim o MAC precisa ser lido “por extenso”, pois no seu nome se abrevia a função incerta de ser um museu da arte e vida contemporâneas – muito bem sintetizada pela expressão incertae sedis (7) (aquilo que não tem classificação científica), que deu título à exposição de José Rufino aberta em outubro de 2005. A forma futurista de Niemeyer remete cada visitante tanto ao passado, como um templo da Antiguidade, um lugar sagrado de peregrinação para um deus desconhecido, quanto ao futuro, como um abrigo flutuante de contínua criação e conquista humana. O MAC é fundamentalmente um lugar que atinge e comove a essência dos paradoxos e esperanças humanas, onde se aponta para a necessidade da arte e se coloca cada um suspenso fragilmente sobre a (in)finitude da existência. Por que museu e por que não?, perguntamos junto com Nelson Leirner (8).

O MAC atua como obra de arte tanto moderna como pós-moderna, pois é inquisidor dos próprios paradoxos que habitam as relações entre o objeto de arte e seu lugar/não-lugar museu – como castelo de pureza pelo isolamento do cubo branco ou contaminação com o mundo –, que atingem a função museu para a recepção participativa da arte contemporânea no mundo hoje. O MAC retoma uma polêmica pré-moderna e pós-moderna: a história da arte deve ser contada a partir da força de cada lugar, para não se sobrepor ou se isolar da geografia da arte, onde o tempo encarna o espaço do local para o universal.

O MAC inspira vários poetas e estados poéticos na paisagem. Como bem colocou Antonio Cícero: “(…) suspende-se no ar feito pergunta (…).” Mas que pergunta é esta que toca a todos, captada pelo Antonio Cícero como eco poético do infinito?

Inspirados nessa experiência do MAC como obra de arte, encontramos o conceito de poéticas do infinito como método e princípio filosófico para apresentarmos a arte contemporânea como diversidade e sistema de sentidos e leituras. O princípio do infinito é síntese de um processo múltiplo e aberto entre fluência de criação e recepção sem limites que envolve a participação do espectador; e inspira construções de leituras ilimitadas. O infinito, que não tem fim nem limites, também está nas mudanças de paradigmas ligadas ao conceito de abertura da obra de arte contemporânea (explorado por vários autores, como Umberto Eco (9)), que incorpora na sua amplitude de sentidos o indeterminado, o transitório e o relativo, como partes de sua própria dimensão vital-existencial.

Ao fundar um museu de arte contemporânea em Niterói, com a arquitetura do MAC, singularmente inaugurou-se uma “forma-função” que exige continuamente a renovação de um compromisso com a participação e circularidade do conhecimento. Por um lado, a obra de Niemeyer é herdeira das crenças que fundaram as utopias modernas, as vanguardas construtivistas russas. Por outro lado, a forma arquitetônica transgride a função tradicional “museu”, ligada às origens européias iluministas, e se torna o que Ernst Block chama de “antecipatória”, ainda não presente na consciência de todos, que traz para a visão a imagem do porvir de relações ampliadas museu-mundo, arte-sociedade.

O MAC não é um museu de formas tradicionais ou neutras, ele é um lugar ativo tanto como obra de arte, contaminadora e inspiradora de cada experiência, quanto como abrigo poético cuja função simbólica é dar vida pública às manifestações artísticas da nossa época. Assim, o MAC materializa em Niterói, pela sua potência estética, as demandas de uma ética viva para os seus espaços: inclusão, mobilidade, leveza e transparência, mas também imanência e transcendência. O MAC como obra de arte transforma a Boa Viagem em um ponto de encontro de utopias, de novos modelos de percepção artística e participação cultural, nas Bandas d’Além (10) entre modernismo e pós-modernismo, entre localismo e globalismo. O MAC como obra de arte instiga a ressignificação da função museu pela pura imanência de sua forma arquitetônica/artística, que não se revela totalmente no encantamento com a paisagem, pois a sua potência intangível de transformação é apenas intuída como processo contínuo de descobrimento e vir a ser.

Luiz Guilherme Vergara (2006)
Diretor Geral do MAC de Niterói.


(1) Borges, Jorge Luis. O Aleph. São Paulo: Editora Globo, 1998.
(2) Guatarri, Félix. As três ecologias. São Paulo: Papirus, 1990.
(3)
Ver texto do Ítalo Campofiorito.
(4) Duncan, Carol. Civilizing rituals. Inside public art museums. Londres: Routliedge, 1996.
(5) Este é o sentido de “autopoiético” explorado nesta apresentação.
(6) Argan, Giulio Carlo. Clássico anticlássico. O Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
(7) Exposição Incertae Sedis, de José Rufino. Curadoria: Claudia Saldanha e Luiz Guilherme Vergara. MAC–Niterói. De 15/10/2005 a 05/03/2006.
(8) Exposição Por que Museu, de Nelson Leirner. Curadoria: Agnaldo Farias. MAC–Niterói. De 15/10/2005 a 05/03/2006
(9) Eco, Umberto. A obra aberta. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.
(10) UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Faculdade de Educação. Laboratório de Educação Patrimonial. Bandas d’Além: almanaque de educação patrimonial. Niterói, 2003.


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